Grafismos sem Luz I
Cidade-menina, mulher-cidade
I
I
Se houvesse de louvar Lisboa decerto que o faria com uma câmara fotográfica, captando a sua luz própria, num clique de dedo confiante, num lugar em cujas cores o desvio outonal se torna oblíquo inverno, de céus rasgados prenhes de gaivotas, porém... a preto-e-branco.
As impressões que aqui revelo são compromissos de diafragma e obturador, em que o toque da luz ousa seduzir o papel, decifradas em palavras-a-preto-e-branco.
O processo de revelação está incompleto, não dei banho de paragem nem fixei a imagem porque Lisboa é de mil formas e de mil formas a sinto, como se a imagem captada não fosse mais do que a projecção do que sou.
II
Clique.
Não interessa tanto como se conheceram quanto como se desconheceram.
Foi numa noite em que as árvores outonais jaziam suspensas no equilíbrio do que fica depois da queda.
O seu corpo caído, também ele feito cinza de entendimento, sobejara na madrugada de Setembro.
“Dá-me um beijo de carne”. A voz vinha das vísceras, de uma outra voz oceânica, melancólica, bêbada. Havia um carril de maresia envolto nas palavras, as sílabas electrizavam-se uma a uma antes mesmo da palavra acabada sair do terminus da boca. Havia o cheiro da noite prenhe a amamentar Lisboa.
“Dá-me um beijo de saudade” dizem-me os eléctricos constantemente. Os eléctricos circulam nos carris venosos do coração ou no entorpecimento amarelo do sofrimento.
Por moto próprio as coisas sacodem-se do pó que as liga à existência.
(Esboço para dois Beijos, Praça do Comércio;1/500 a f1.4)
Clique.
Uma criança agacha-se e pega num calhau redondo, redondo como um planeta povoado, e guarda-o no bolso das calças mantendo-o na mão cerrada. Há uma secreta força na mão de uma criança; há uma descarada intenção na acção de uma criança. “Dá-me um beijo de despedida”.
Corre, corre criança para o Tejo, corre para a enseada amena dos fenícios, exímios na arte de remar, marinheiros e contrabandistas da púrpura autêntica. Não, não me refiro ao sangue das pelejas dos homens vertido, refiro-me à linfa dos moluscos da costa da Síria; refiro-me ao tecido rente aos dedos do tacto marítimo; refiro-me aos sois que existem à noite escondidos além dos céus.
Lisboa eleva-se soberba na palma da tua mão ó criança! Não a sentes mover-se nos vincos da tua carne, nas sendas dos teus olhos? É Lisboa que principia a beleza em ti. “Dá-me um beijo antigo”. Ouso dizer que Lisboa, ela própria, é uma criança desprotegida, desabrigada do inevitável crescimento de mulher. A meus olhos Lisboa é a criança que corre junto ao Tejo e pula para Ocidente, pula para Oriente a brincar ao faz-de-conta. Mas é junto ao rio que ela é mais feliz, mais sorridente, que é como quem diz, mais menina.
Não sei o que dizer-te, foste tu quem lançou nas águas do Tejo as mil embarcações de papel. Foste tu quem teceu as estrelas em constelações no céu da tua boca de chocolate. Não sei o que dizer-te. “Dá-me um beijo doce”. Não quero falar-te dos velhos, dessoutra velhice incondicional, tortuosa e desumana que tão bem vejo aqui e ali, em todas as esquinas por onde passo. Não, não quero falar-te dos desencontros. Não quero falar-te das mãos frias a tocar o rosto macio e pressuroso, dessas mesmas mãos que te dão a fome e a sede.
As ruas são as mesmas quer queiras quer não, alguém tem de as percorrer em hora certa porque há sempre uma esquina em qualquer desígnio. Fala-me dessas esquinas que dobras ou do sino que dobra no alto campanário da igreja de S. Vicente ou do papel de rebuçado que desdobras.
Desconheceram-se hoje. Ela olhou o seu reflexo numa poça de água e não admirou o esboço dele. Viu-se a si própria a olhar-se. Os seus olhos viam os seus próprios olhos a olharem-se. “Dá-me um beijo de olhos”. A voz vem de dentro como um suspiro de marinheiro em terra.
Ai, dói-me a morte toda cá dentro!
“Dá-me um beijo de amor”.
Clique.
Uma criança agacha-se e pega num calhau redondo, redondo como um planeta povoado, e guarda-o no bolso das calças mantendo-o na mão cerrada. Há uma secreta força na mão de uma criança; há uma descarada intenção na acção de uma criança. “Dá-me um beijo de despedida”.
Corre, corre criança para o Tejo, corre para a enseada amena dos fenícios, exímios na arte de remar, marinheiros e contrabandistas da púrpura autêntica. Não, não me refiro ao sangue das pelejas dos homens vertido, refiro-me à linfa dos moluscos da costa da Síria; refiro-me ao tecido rente aos dedos do tacto marítimo; refiro-me aos sois que existem à noite escondidos além dos céus.
Lisboa eleva-se soberba na palma da tua mão ó criança! Não a sentes mover-se nos vincos da tua carne, nas sendas dos teus olhos? É Lisboa que principia a beleza em ti. “Dá-me um beijo antigo”. Ouso dizer que Lisboa, ela própria, é uma criança desprotegida, desabrigada do inevitável crescimento de mulher. A meus olhos Lisboa é a criança que corre junto ao Tejo e pula para Ocidente, pula para Oriente a brincar ao faz-de-conta. Mas é junto ao rio que ela é mais feliz, mais sorridente, que é como quem diz, mais menina.
Não sei o que dizer-te, foste tu quem lançou nas águas do Tejo as mil embarcações de papel. Foste tu quem teceu as estrelas em constelações no céu da tua boca de chocolate. Não sei o que dizer-te. “Dá-me um beijo doce”. Não quero falar-te dos velhos, dessoutra velhice incondicional, tortuosa e desumana que tão bem vejo aqui e ali, em todas as esquinas por onde passo. Não, não quero falar-te dos desencontros. Não quero falar-te das mãos frias a tocar o rosto macio e pressuroso, dessas mesmas mãos que te dão a fome e a sede.
As ruas são as mesmas quer queiras quer não, alguém tem de as percorrer em hora certa porque há sempre uma esquina em qualquer desígnio. Fala-me dessas esquinas que dobras ou do sino que dobra no alto campanário da igreja de S. Vicente ou do papel de rebuçado que desdobras.
Desconheceram-se hoje. Ela olhou o seu reflexo numa poça de água e não admirou o esboço dele. Viu-se a si própria a olhar-se. Os seus olhos viam os seus próprios olhos a olharem-se. “Dá-me um beijo de olhos”. A voz vem de dentro como um suspiro de marinheiro em terra.
Ai, dói-me a morte toda cá dentro!
“Dá-me um beijo de amor”.
(Cidade menina, Poço do Bispo; 4 horas a f22)

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