Grafismos sem Luz II
III
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Por quem chove esta noite? Porque faz frio esta noite?
Por que noite a lua de hoje não é farol?
O frio apetece na alma em cuja terra a chuva os pecados lavra.
Choverá esta noite para remir os pecados da cidade?
Ontem não choveu. Pecou-se tanto! As árvores criaram raízes na nudez dos amantes e despiram-se também elas para amarem a terra, intensamente.
Geme a noite o parir da aurora. Aurora, minha menina doce de olhos cinzentos, teus dedos nevoentos que escondem um qualquer percurso. Em três tempos te fazes mulher madura. Onde eram teus dedos é agora ventre de fogo que arde em esplendor matinal. Arde-me o peito. A cidade ontem era puta.
Era puta a cidade ontem com toda a sua pose de Lisboa. Arde-me o peito com ardor tamanho que me exponho ao amanhecer chuvoso.
Primeiramente despiu-se e só depois o convidou a fazer o mesmo. Não é o sexo. É a nudez. Nua é um rio cujas águas, por veios entretecidos, carregam a prerrogativa de mulher nascida. Os ombros escarpados, encolhidos pelo espanto, repuxam a lascívia e sete seios abruptos irrompem dela; sete chafarizes a saciarem a sede dos amantes. Ainda assim se faz puta.
“Despe-te homem, arranca as mil máscaras da carne e põe-te à-vontade. Bebe dessas águas, umas doces outras salgadas, a história que te sustém”.
Mas o homem não se despe e afasta-se melindrado. Segue o percurso de sempre por entre as ruas vazias de uma viagem que tão bem conhece.
Recuará ele ante qualquer convite para se dar a conhecer à nudez?
Prossegue. O céu entoa o fogo que arde na beleza natural das coisas. Prossegue, com a ténue luz de serapilheira outonal a acariciar-lhe o corpo vestido. Prossegue. O cheiro a terra húmida penetra-lhe a pele seca, escamosa de uma velhice já adivinhada. Prossegue, com os olhos inchados do choro abundante. Prossegue. Prossegue. Prossegue.
(Nudez, Avenida da Liberdade;1/2 a f22)
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A cidade desperta. Mulher casta esta que nos aperta em seu peito com virtude, com amor.
Durante toda a noite a criança, entregue ao seu sono, sonhou com berlindes de cores várias sem dar conta da chuva que caía a jorros.
Mas a cidade desperta. A mulher aperta a criança contra o seu peito e afaga-lhe a trunfa. Dá-lhe os bons-dias com um beijo terno, quase materno.
“Dá-me de comer, quero uma carcaça com manteiga e um copo de leite fresco” ouço a criança dizer à mulher que o aperta contra o peito com a tal força que só se atribui a uma mãe.
“Estás em mim come o que quiseres, tudo o que sou é teu”.
“Sabes, sonhei com um arco-íris tão grande que começava na minha mão e acabava na tua boca! Era tão longe que tu estavas, era tão longe que tive medo que eu é que estivesse longe e que depois não conseguisse fechar o arco-íris e sair do sonho. Onde é que estavas? Parecia nem estares sequer. Tenho medo de te perder. Tenho medo que deixes de ser minha mãe. Senti-me perdido com tanta luz. As sete cores eram uma só, brilhava tanto, cegava-me tanto, os meus olhos ardiam e os meus lábios estavam secos. Tinha sede. Tinha toda a sede que tu possas imaginar. Eu queria chuva, queria as gotas da chuva na minha cara... choveu esta noite? Estás molhada. Sabes que o arco-íris aparece no lado onde o sol não está? Porque choveu esta noite? Porque chove quando chove”?
“Para que tu possas sorrir o arco-íris, meu rapaz”.
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A cidade desperta. Mulher casta esta que nos aperta em seu peito com virtude, com amor.
Durante toda a noite a criança, entregue ao seu sono, sonhou com berlindes de cores várias sem dar conta da chuva que caía a jorros.
Mas a cidade desperta. A mulher aperta a criança contra o seu peito e afaga-lhe a trunfa. Dá-lhe os bons-dias com um beijo terno, quase materno.
“Dá-me de comer, quero uma carcaça com manteiga e um copo de leite fresco” ouço a criança dizer à mulher que o aperta contra o peito com a tal força que só se atribui a uma mãe.
“Estás em mim come o que quiseres, tudo o que sou é teu”.
“Sabes, sonhei com um arco-íris tão grande que começava na minha mão e acabava na tua boca! Era tão longe que tu estavas, era tão longe que tive medo que eu é que estivesse longe e que depois não conseguisse fechar o arco-íris e sair do sonho. Onde é que estavas? Parecia nem estares sequer. Tenho medo de te perder. Tenho medo que deixes de ser minha mãe. Senti-me perdido com tanta luz. As sete cores eram uma só, brilhava tanto, cegava-me tanto, os meus olhos ardiam e os meus lábios estavam secos. Tinha sede. Tinha toda a sede que tu possas imaginar. Eu queria chuva, queria as gotas da chuva na minha cara... choveu esta noite? Estás molhada. Sabes que o arco-íris aparece no lado onde o sol não está? Porque choveu esta noite? Porque chove quando chove”?
“Para que tu possas sorrir o arco-íris, meu rapaz”.
(Cidade mãe, Portas de Santo Antão; 1/125 a f8)
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Prossegue. O dia claro nas suas mãos escuras. Os olhos claros da sua visão obscura.
A claridade põe a descoberto as coisas e debaixo de uma luz viva o homem prossegue.
(Sem título, Restauradores;1/1000 a f1.8)
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Prossegue. O dia claro nas suas mãos escuras. Os olhos claros da sua visão obscura.
A claridade põe a descoberto as coisas e debaixo de uma luz viva o homem prossegue.
(Sem título, Restauradores;1/1000 a f1.8)

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