Domingo, Setembro 03, 2006

Grafismos sem Luz III

IV

Clique.

Ah! se esta rua fosse uma boca de mulher
eu seria um beijo vagabundo
e se no seu recesso uma fonte vertesse contínua
desejo
eu seria um beijo vagabundo
Se não fosse uma boca esta rua de elíptico nome
eu seria um vagabundo por beijar
ainda que não fosse de mulher esta boca
que beijo
seria com certeza uma rua de um corpo
de mulher
Não são de mulher estes lábios que não beijo
nem a rua é vagabunda na boca que desejo
Assim sôfrego beijo o vagabundo traço
da rua de mulher da mulher de rua
que és Lisboa.

(Corpo de mulher, Alfama;1/60 a f16)

V


Clique

Não que busques o apartar das bocas
Mas porque no exagero do pedido
O beijo recua pendente

Um beijo não se pede
No encontro de duas bocas
O beijo acontece
É mito que tece
Lisboa e Tejo
Nu(m) beijo

Por isso não, não me peças um beijo
Da minha boca aproxima a tua boca
E permite que o beijo aconteça
Da condição única que tem para acontecer
(Memória do Cais das colunas, Terreiro do Paço; 1/2000 a 2.8)

VI

Clique.

Regressa ao Cais de partida de todas as suas viagens
Regressa cheio de comédias e tragédias
Traz na carne gravados todo e qualquer percurso de água
São rotas de sol, sal e lua

Regressa ao Cais da noite
Regressa cheio de terras e céus nunca explorados

Lisboa é nocturna e enlaça-o como uma amante satisfeita

De uma janela de luz ateia fogo com os olhos
A rua que, vigilante, teima em não adormecer
Como se fosse o seu esquivo amante
Como se fosse a primeira vez que estivesse sem ele

Regressa ao Cais da alma
Como regressa à pedra que é língua viva de Tágide
(Outrora Língua de Pedra, Cais do Sodré;1/500 a f11)

VII

Clique

Posidónio diz-me
É a minha Lisboa a Odyssêa de Strabão?

Olisipo do templo de Minerva
Da torre de Ulysses derrubada
És esta Lisboa que trago em mim?

Depois do Aqueronte o Tejo
Cujas águas insinuam a debilidade de Posídon

Mas oh! Ulysses ao lembrar o Tejo por ti navegado
Sinto minha polpa abrir-se para uma Grécia conter

Essa enseada amena dos Fenícios possuída
Tanto mais provável quanto menos apetecida
Que importa Lisboa se hoje és minha?

Canto por ti só por ti
Pelo que jamais foste e jamais serás
O que és senão o que deixas por ser?

Ser-se as entrelinhas do poema do percurso
Ser-se os espaços entre os caracteres do carácter
Ser-se Lisboa à noite no assomo do sol

(Devaneio, Cais do Sodré; vários séculos a f1.4)