Segunda-feira, Setembro 18, 2006
Domingo, Setembro 17, 2006
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Quarta-feira, Setembro 06, 2006
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Segunda-feira, Setembro 04, 2006
Domingo, Setembro 03, 2006
Grafismos sem Luz I
Cidade-menina, mulher-cidade
I
I
Se houvesse de louvar Lisboa decerto que o faria com uma câmara fotográfica, captando a sua luz própria, num clique de dedo confiante, num lugar em cujas cores o desvio outonal se torna oblíquo inverno, de céus rasgados prenhes de gaivotas, porém... a preto-e-branco.
As impressões que aqui revelo são compromissos de diafragma e obturador, em que o toque da luz ousa seduzir o papel, decifradas em palavras-a-preto-e-branco.
O processo de revelação está incompleto, não dei banho de paragem nem fixei a imagem porque Lisboa é de mil formas e de mil formas a sinto, como se a imagem captada não fosse mais do que a projecção do que sou.
II
Clique.
Não interessa tanto como se conheceram quanto como se desconheceram.
Foi numa noite em que as árvores outonais jaziam suspensas no equilíbrio do que fica depois da queda.
O seu corpo caído, também ele feito cinza de entendimento, sobejara na madrugada de Setembro.
“Dá-me um beijo de carne”. A voz vinha das vísceras, de uma outra voz oceânica, melancólica, bêbada. Havia um carril de maresia envolto nas palavras, as sílabas electrizavam-se uma a uma antes mesmo da palavra acabada sair do terminus da boca. Havia o cheiro da noite prenhe a amamentar Lisboa.
“Dá-me um beijo de saudade” dizem-me os eléctricos constantemente. Os eléctricos circulam nos carris venosos do coração ou no entorpecimento amarelo do sofrimento.
Por moto próprio as coisas sacodem-se do pó que as liga à existência.
(Esboço para dois Beijos, Praça do Comércio;1/500 a f1.4)
Clique.
Uma criança agacha-se e pega num calhau redondo, redondo como um planeta povoado, e guarda-o no bolso das calças mantendo-o na mão cerrada. Há uma secreta força na mão de uma criança; há uma descarada intenção na acção de uma criança. “Dá-me um beijo de despedida”.
Corre, corre criança para o Tejo, corre para a enseada amena dos fenícios, exímios na arte de remar, marinheiros e contrabandistas da púrpura autêntica. Não, não me refiro ao sangue das pelejas dos homens vertido, refiro-me à linfa dos moluscos da costa da Síria; refiro-me ao tecido rente aos dedos do tacto marítimo; refiro-me aos sois que existem à noite escondidos além dos céus.
Lisboa eleva-se soberba na palma da tua mão ó criança! Não a sentes mover-se nos vincos da tua carne, nas sendas dos teus olhos? É Lisboa que principia a beleza em ti. “Dá-me um beijo antigo”. Ouso dizer que Lisboa, ela própria, é uma criança desprotegida, desabrigada do inevitável crescimento de mulher. A meus olhos Lisboa é a criança que corre junto ao Tejo e pula para Ocidente, pula para Oriente a brincar ao faz-de-conta. Mas é junto ao rio que ela é mais feliz, mais sorridente, que é como quem diz, mais menina.
Não sei o que dizer-te, foste tu quem lançou nas águas do Tejo as mil embarcações de papel. Foste tu quem teceu as estrelas em constelações no céu da tua boca de chocolate. Não sei o que dizer-te. “Dá-me um beijo doce”. Não quero falar-te dos velhos, dessoutra velhice incondicional, tortuosa e desumana que tão bem vejo aqui e ali, em todas as esquinas por onde passo. Não, não quero falar-te dos desencontros. Não quero falar-te das mãos frias a tocar o rosto macio e pressuroso, dessas mesmas mãos que te dão a fome e a sede.
As ruas são as mesmas quer queiras quer não, alguém tem de as percorrer em hora certa porque há sempre uma esquina em qualquer desígnio. Fala-me dessas esquinas que dobras ou do sino que dobra no alto campanário da igreja de S. Vicente ou do papel de rebuçado que desdobras.
Desconheceram-se hoje. Ela olhou o seu reflexo numa poça de água e não admirou o esboço dele. Viu-se a si própria a olhar-se. Os seus olhos viam os seus próprios olhos a olharem-se. “Dá-me um beijo de olhos”. A voz vem de dentro como um suspiro de marinheiro em terra.
Ai, dói-me a morte toda cá dentro!
“Dá-me um beijo de amor”.
Clique.
Uma criança agacha-se e pega num calhau redondo, redondo como um planeta povoado, e guarda-o no bolso das calças mantendo-o na mão cerrada. Há uma secreta força na mão de uma criança; há uma descarada intenção na acção de uma criança. “Dá-me um beijo de despedida”.
Corre, corre criança para o Tejo, corre para a enseada amena dos fenícios, exímios na arte de remar, marinheiros e contrabandistas da púrpura autêntica. Não, não me refiro ao sangue das pelejas dos homens vertido, refiro-me à linfa dos moluscos da costa da Síria; refiro-me ao tecido rente aos dedos do tacto marítimo; refiro-me aos sois que existem à noite escondidos além dos céus.
Lisboa eleva-se soberba na palma da tua mão ó criança! Não a sentes mover-se nos vincos da tua carne, nas sendas dos teus olhos? É Lisboa que principia a beleza em ti. “Dá-me um beijo antigo”. Ouso dizer que Lisboa, ela própria, é uma criança desprotegida, desabrigada do inevitável crescimento de mulher. A meus olhos Lisboa é a criança que corre junto ao Tejo e pula para Ocidente, pula para Oriente a brincar ao faz-de-conta. Mas é junto ao rio que ela é mais feliz, mais sorridente, que é como quem diz, mais menina.
Não sei o que dizer-te, foste tu quem lançou nas águas do Tejo as mil embarcações de papel. Foste tu quem teceu as estrelas em constelações no céu da tua boca de chocolate. Não sei o que dizer-te. “Dá-me um beijo doce”. Não quero falar-te dos velhos, dessoutra velhice incondicional, tortuosa e desumana que tão bem vejo aqui e ali, em todas as esquinas por onde passo. Não, não quero falar-te dos desencontros. Não quero falar-te das mãos frias a tocar o rosto macio e pressuroso, dessas mesmas mãos que te dão a fome e a sede.
As ruas são as mesmas quer queiras quer não, alguém tem de as percorrer em hora certa porque há sempre uma esquina em qualquer desígnio. Fala-me dessas esquinas que dobras ou do sino que dobra no alto campanário da igreja de S. Vicente ou do papel de rebuçado que desdobras.
Desconheceram-se hoje. Ela olhou o seu reflexo numa poça de água e não admirou o esboço dele. Viu-se a si própria a olhar-se. Os seus olhos viam os seus próprios olhos a olharem-se. “Dá-me um beijo de olhos”. A voz vem de dentro como um suspiro de marinheiro em terra.
Ai, dói-me a morte toda cá dentro!
“Dá-me um beijo de amor”.
(Cidade menina, Poço do Bispo; 4 horas a f22)
Grafismos sem Luz II
III
Clique.
Por quem chove esta noite? Porque faz frio esta noite?
Por que noite a lua de hoje não é farol?
O frio apetece na alma em cuja terra a chuva os pecados lavra.
Choverá esta noite para remir os pecados da cidade?
Ontem não choveu. Pecou-se tanto! As árvores criaram raízes na nudez dos amantes e despiram-se também elas para amarem a terra, intensamente.
Geme a noite o parir da aurora. Aurora, minha menina doce de olhos cinzentos, teus dedos nevoentos que escondem um qualquer percurso. Em três tempos te fazes mulher madura. Onde eram teus dedos é agora ventre de fogo que arde em esplendor matinal. Arde-me o peito. A cidade ontem era puta.
Era puta a cidade ontem com toda a sua pose de Lisboa. Arde-me o peito com ardor tamanho que me exponho ao amanhecer chuvoso.
Primeiramente despiu-se e só depois o convidou a fazer o mesmo. Não é o sexo. É a nudez. Nua é um rio cujas águas, por veios entretecidos, carregam a prerrogativa de mulher nascida. Os ombros escarpados, encolhidos pelo espanto, repuxam a lascívia e sete seios abruptos irrompem dela; sete chafarizes a saciarem a sede dos amantes. Ainda assim se faz puta.
“Despe-te homem, arranca as mil máscaras da carne e põe-te à-vontade. Bebe dessas águas, umas doces outras salgadas, a história que te sustém”.
Mas o homem não se despe e afasta-se melindrado. Segue o percurso de sempre por entre as ruas vazias de uma viagem que tão bem conhece.
Recuará ele ante qualquer convite para se dar a conhecer à nudez?
Prossegue. O céu entoa o fogo que arde na beleza natural das coisas. Prossegue, com a ténue luz de serapilheira outonal a acariciar-lhe o corpo vestido. Prossegue. O cheiro a terra húmida penetra-lhe a pele seca, escamosa de uma velhice já adivinhada. Prossegue, com os olhos inchados do choro abundante. Prossegue. Prossegue. Prossegue.
(Nudez, Avenida da Liberdade;1/2 a f22)
Clique.
A cidade desperta. Mulher casta esta que nos aperta em seu peito com virtude, com amor.
Durante toda a noite a criança, entregue ao seu sono, sonhou com berlindes de cores várias sem dar conta da chuva que caía a jorros.
Mas a cidade desperta. A mulher aperta a criança contra o seu peito e afaga-lhe a trunfa. Dá-lhe os bons-dias com um beijo terno, quase materno.
“Dá-me de comer, quero uma carcaça com manteiga e um copo de leite fresco” ouço a criança dizer à mulher que o aperta contra o peito com a tal força que só se atribui a uma mãe.
“Estás em mim come o que quiseres, tudo o que sou é teu”.
“Sabes, sonhei com um arco-íris tão grande que começava na minha mão e acabava na tua boca! Era tão longe que tu estavas, era tão longe que tive medo que eu é que estivesse longe e que depois não conseguisse fechar o arco-íris e sair do sonho. Onde é que estavas? Parecia nem estares sequer. Tenho medo de te perder. Tenho medo que deixes de ser minha mãe. Senti-me perdido com tanta luz. As sete cores eram uma só, brilhava tanto, cegava-me tanto, os meus olhos ardiam e os meus lábios estavam secos. Tinha sede. Tinha toda a sede que tu possas imaginar. Eu queria chuva, queria as gotas da chuva na minha cara... choveu esta noite? Estás molhada. Sabes que o arco-íris aparece no lado onde o sol não está? Porque choveu esta noite? Porque chove quando chove”?
“Para que tu possas sorrir o arco-íris, meu rapaz”.
Clique.
A cidade desperta. Mulher casta esta que nos aperta em seu peito com virtude, com amor.
Durante toda a noite a criança, entregue ao seu sono, sonhou com berlindes de cores várias sem dar conta da chuva que caía a jorros.
Mas a cidade desperta. A mulher aperta a criança contra o seu peito e afaga-lhe a trunfa. Dá-lhe os bons-dias com um beijo terno, quase materno.
“Dá-me de comer, quero uma carcaça com manteiga e um copo de leite fresco” ouço a criança dizer à mulher que o aperta contra o peito com a tal força que só se atribui a uma mãe.
“Estás em mim come o que quiseres, tudo o que sou é teu”.
“Sabes, sonhei com um arco-íris tão grande que começava na minha mão e acabava na tua boca! Era tão longe que tu estavas, era tão longe que tive medo que eu é que estivesse longe e que depois não conseguisse fechar o arco-íris e sair do sonho. Onde é que estavas? Parecia nem estares sequer. Tenho medo de te perder. Tenho medo que deixes de ser minha mãe. Senti-me perdido com tanta luz. As sete cores eram uma só, brilhava tanto, cegava-me tanto, os meus olhos ardiam e os meus lábios estavam secos. Tinha sede. Tinha toda a sede que tu possas imaginar. Eu queria chuva, queria as gotas da chuva na minha cara... choveu esta noite? Estás molhada. Sabes que o arco-íris aparece no lado onde o sol não está? Porque choveu esta noite? Porque chove quando chove”?
“Para que tu possas sorrir o arco-íris, meu rapaz”.
(Cidade mãe, Portas de Santo Antão; 1/125 a f8)
Clique.
Prossegue. O dia claro nas suas mãos escuras. Os olhos claros da sua visão obscura.
A claridade põe a descoberto as coisas e debaixo de uma luz viva o homem prossegue.
(Sem título, Restauradores;1/1000 a f1.8)
Clique.
Prossegue. O dia claro nas suas mãos escuras. Os olhos claros da sua visão obscura.
A claridade põe a descoberto as coisas e debaixo de uma luz viva o homem prossegue.
(Sem título, Restauradores;1/1000 a f1.8)
Grafismos sem Luz III
IV
Clique.
Ah! se esta rua fosse uma boca de mulher
eu seria um beijo vagabundo
e se no seu recesso uma fonte vertesse contínua
desejo
eu seria um beijo vagabundo
Se não fosse uma boca esta rua de elíptico nome
eu seria um vagabundo por beijar
ainda que não fosse de mulher esta boca
que beijo
seria com certeza uma rua de um corpo
de mulher
Não são de mulher estes lábios que não beijo
nem a rua é vagabunda na boca que desejo
Assim sôfrego beijo o vagabundo traço
da rua de mulher da mulher de rua
que és Lisboa.
(Corpo de mulher, Alfama;1/60 a f16)
V
Clique
Não que busques o apartar das bocas
Mas porque no exagero do pedido
O beijo recua pendente
Um beijo não se pede
No encontro de duas bocas
O beijo acontece
É mito que tece
Lisboa e Tejo
Nu(m) beijo
Por isso não, não me peças um beijo
Da minha boca aproxima a tua boca
E permite que o beijo aconteça
Da condição única que tem para acontecer
(Memória do Cais das colunas, Terreiro do Paço; 1/2000 a 2.8)
VI
Clique.
Regressa ao Cais de partida de todas as suas viagens
Regressa cheio de comédias e tragédias
Traz na carne gravados todo e qualquer percurso de água
São rotas de sol, sal e lua
Regressa ao Cais da noite
Regressa cheio de terras e céus nunca explorados
Lisboa é nocturna e enlaça-o como uma amante satisfeita
De uma janela de luz ateia fogo com os olhos
A rua que, vigilante, teima em não adormecer
Como se fosse o seu esquivo amante
Como se fosse a primeira vez que estivesse sem ele
Regressa ao Cais da alma
Como regressa à pedra que é língua viva de Tágide
(Outrora Língua de Pedra, Cais do Sodré;1/500 a f11)
VII
Clique
Posidónio diz-me
É a minha Lisboa a Odyssêa de Strabão?
Olisipo do templo de Minerva
Da torre de Ulysses derrubada
És esta Lisboa que trago em mim?
Depois do Aqueronte o Tejo
Cujas águas insinuam a debilidade de Posídon
Mas oh! Ulysses ao lembrar o Tejo por ti navegado
Sinto minha polpa abrir-se para uma Grécia conter
Essa enseada amena dos Fenícios possuída
Tanto mais provável quanto menos apetecida
Que importa Lisboa se hoje és minha?
Canto por ti só por ti
Pelo que jamais foste e jamais serás
O que és senão o que deixas por ser?
Ser-se as entrelinhas do poema do percurso
Ser-se os espaços entre os caracteres do carácter
Ser-se Lisboa à noite no assomo do sol
(Devaneio, Cais do Sodré; vários séculos a f1.4)
Clique.
Ah! se esta rua fosse uma boca de mulher
eu seria um beijo vagabundo
e se no seu recesso uma fonte vertesse contínua
desejo
eu seria um beijo vagabundo
Se não fosse uma boca esta rua de elíptico nome
eu seria um vagabundo por beijar
ainda que não fosse de mulher esta boca
que beijo
seria com certeza uma rua de um corpo
de mulher
Não são de mulher estes lábios que não beijo
nem a rua é vagabunda na boca que desejo
Assim sôfrego beijo o vagabundo traço
da rua de mulher da mulher de rua
que és Lisboa.
(Corpo de mulher, Alfama;1/60 a f16)
V
Clique
Não que busques o apartar das bocas
Mas porque no exagero do pedido
O beijo recua pendente
Um beijo não se pede
No encontro de duas bocas
O beijo acontece
É mito que tece
Lisboa e Tejo
Nu(m) beijo
Por isso não, não me peças um beijo
Da minha boca aproxima a tua boca
E permite que o beijo aconteça
Da condição única que tem para acontecer
(Memória do Cais das colunas, Terreiro do Paço; 1/2000 a 2.8)
VI
Clique.
Regressa ao Cais de partida de todas as suas viagens
Regressa cheio de comédias e tragédias
Traz na carne gravados todo e qualquer percurso de água
São rotas de sol, sal e lua
Regressa ao Cais da noite
Regressa cheio de terras e céus nunca explorados
Lisboa é nocturna e enlaça-o como uma amante satisfeita
De uma janela de luz ateia fogo com os olhos
A rua que, vigilante, teima em não adormecer
Como se fosse o seu esquivo amante
Como se fosse a primeira vez que estivesse sem ele
Regressa ao Cais da alma
Como regressa à pedra que é língua viva de Tágide
(Outrora Língua de Pedra, Cais do Sodré;1/500 a f11)
VII
Clique
Posidónio diz-me
É a minha Lisboa a Odyssêa de Strabão?
Olisipo do templo de Minerva
Da torre de Ulysses derrubada
És esta Lisboa que trago em mim?
Depois do Aqueronte o Tejo
Cujas águas insinuam a debilidade de Posídon
Mas oh! Ulysses ao lembrar o Tejo por ti navegado
Sinto minha polpa abrir-se para uma Grécia conter
Essa enseada amena dos Fenícios possuída
Tanto mais provável quanto menos apetecida
Que importa Lisboa se hoje és minha?
Canto por ti só por ti
Pelo que jamais foste e jamais serás
O que és senão o que deixas por ser?
Ser-se as entrelinhas do poema do percurso
Ser-se os espaços entre os caracteres do carácter
Ser-se Lisboa à noite no assomo do sol
(Devaneio, Cais do Sodré; vários séculos a f1.4)





















